Marcadores

A percussão é a base da MPB, diz antropóloga (BA)

A percussão ganhou maior projeção nos últimos anos, e o samba-reggae, criado por Neguinho do Samba, é um marco da  sua sedimentação no cenário musical da Bahia. A análise é da antropóloga Goli Guerreiro, autora de A Trama dos Tambores, publicado em 2000, relançado em 2010 e que é um estudo obrigatório para entender  as nuances desse ritmo.

Qual é a sua opinião sobre a percussão ter sido escolhida como tema do Carnaval 2011?
Espero que este ano não aconteça o que aconteceu com a capoeira. Eu quase não vi blocos fazendo menção ao tema. Um ou outro fazia. Espero que o samba-reggae tenha um lugar de destaque, que a gente ouça os clássicos, as novidades do samba-reggae. Adoraria que isso se expandisse para além dos blocos afro que já tocam samba-reggae de uma forma  majestosa.

Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre o afro-pop com destaque para a percussão?
Nos anos 80, eu estava estudando antropologia em São Paulo e percebia de longe aquela efervescência que estava rolando em Salvador. A cidade se afirmando negra, inventando uma estética e um ritmo. Então isso é um evento artístico e estético da maior importância. Quando notei isso, pensei: é uma coisa muito interessante para ser descrita e analisada.

Qual era a sua questão principal nesse estudo?

A  pergunta que formulei foi: como se inventa um ritmo? Para responder a essa pergunta, era preciso não apenas olhar a história musical baiana e todo o repertório que ela tinha disponível, mas também ver como é que esse repertório se alimentava de outros universos musicais. Para entender o samba-reggae, era preciso conhecer as suas conexões com os EUA, o Caribe e os países africanos e descrever esse trânsito que hoje chamo de terceira diáspora.

A que a senhora atribui a percussão ter conseguido sair da “cozinha” para a “sala de estar”?
A uma conjunção de fatores. A percussão é um elemento central da vida de Salvador. Você entra no ônibus e tem um cara batucando na janela. Tem a música dos terreiros.  Há sempre uma ambiência sonora percussiva na cidade. Então, a percussão é a expressão do cotidiano de um povo. Tem uma coisa muito importante também que é o mercado de world music, que começou a prestar atenção nas outras maneiras de fazer música, ou seja, nas “músicas do mundo”. O samba-reggae foi um momento de criação musical que valorizou o tambor e o trabalho do percussionista. Tal como a invenção do trio elétrico que mudou completamente a estética da produção musical carnavalesca, o samba-reggae é outro momento que também transforma a maneira de se fazer música, de se fazer o Carnaval.

O samba-reggae está ligado a um movimento ideológico?
Sim. O movimento de negritude teve no samba-reggae um trunfo poderosíssimo. Essa conexão com o reggae é uma chave. O reggae teve a capacidade de romper estruturas. O nome samba-reggae é um elemento que pode ajudar a entender por que o  estilo se tornou tão expressivo. Ele incorpora coisas muito importantes, que têm uma simbologia muito forte e quando juntas se potencializam. Ainda por cima está se inventando algo novo.

O que você quer dizer com estética percussiva?
É um modo de conceber o jeito de usar os tambores, o jeito de percutir. Originalmente o samba-reggae foi criado com sete tipos de tambor. Então, o modo de fazer dialogar esses instrumentos, de fazer os silêncios, se toca com a mão ou com baqueta, ou seja, a maneira de estruturar a banda é uma estética que foi criada. E Neguinho do Samba é o cara que esteve no front dessa reinvenção da percussão na Bahia. Isso traz uma mudança importantíssima que é a posição do percussionista, que antes era considerado o cara que estava lá na cozinha, o músico que não tinha muita visibilidade, daí ele vem para o centro da cena.

Como você percebe a percussão dentro desse cenário afro-pop baiano?
A percussão é a maneira de fazer música por excelência. Não há como pensar em produção musical baiana ou brasileira sem pensar na percussão como
um pilar. Há muitas maneiras de trabalhar a percussão dentro do contexto afro-pop. Tem um segmento musical que coloca a percussão em um sampler  e você nem vê o percussionista. Há bandas que mesclam instrumentos harmônicos com instrumentos percussivos.  O que é particular, talvez, no caso da Bahia, foi que ela conquistou uma valorização da percussão.

Qual é a importância da percussão para a construção da identidade musical da capital da Bahia?

A percussão é a base da Música Popular Brasileira (MPB), é o elemento que vai dialogar com a música europeia, com os encontros que o universo musical realizou aqui. A noção de identidade está tão usada que já não se sabe o que ela significa. É um conceito saturado. A música produzida na Bahia tem muitos jeitos e não dá para dizer que este é o que representa a Bahia. Não vejo muito sentido em falar em identidade musical. Isso reduz uma coisa que é rica e acaba por tentar engaiolar a pulsação da música numa fórmula acadêmica.

Qual a relação do samba-reggae dentro da tradição percussiva brasileira?
O samba-reggae é uma atualização de um trajeto musical da música brasileira e baiana. Não se pode pensar no samba-reggae sem pensar nos blocos de índios, nos afoxés, nas batucadas, na música do candomblé, no samba do Rio de Janeiro. Todas estas referências estão embutidas no samba-reggae.

Quais as características mais marcantes da percussão na sua concepção?
São três elementos: oralidade, improvisação e corporalidade. Esses elementos são marcantes para entender como se ensina música. Você ouve, olha e imita. Acompanhei durante um ano o aprendizado da banda Didá e a tentativa de Neguinho do Samba e Víviam Caroline de instituir a partitura como elemento de formação. Não funcionava, porque, por mais atraente que fosse, o modo de aprender é esse: ouve, olha e imita. É uma coisa corporal. Você descobre dentro de seu próprio corpo como é que se faz para percutir e como a dinâmica se estabelece.
FONTE:
Juliana Dias, do A TARDE on line

Nenhum comentário: