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Quartinha completa 50 anos de zabumba

  Hoje, dia 4 de julho de 2009, o pernambucano Reginaldo Pereira de Melo, mestre zabumbeiro, nascido em Afogados (bairro do Recife), mais conhecido como Quartinha, está completando 50 anos de zabumba com muita dedicação, profissionalismo e amor pelo seu instrumento. Logo que começou, com apenas sete anos de idade, fez uma apresentação com ninguém menos que o Rei do Baião, Luiz Gonzaga. Em sua recente passagem por João Pessoa, no dia 26 de junho de 2009, para fazer show com o forrozeiro e cantor Santanna “O Cantador”, Quartinha concedeu uma entrevista para o Blog Paraíba Percussiva e nos contou alguns detalhes de sua carreira e da festa que irá promover para comemoração desta data tão especial em sua vida e na vida de todos os zabumbeiros do mundo.

PP: Pra começar, gostaria que você falasse um pouco de você: seu nome, onde nasceu, quantos anos...

QUARTINHA: Meu é Reginaldo Pereira de Melo. Eu nasci em Afogados que é um bairrozinho do Recife e eu tenho 58 anos e vou agora dia 4, 50 só de zabumba (risos)

PP: Merece uma festa!

QUARTINHA: Eu vou fazer uma festa lá na Sala de Reboco. Já estou organizando tudinho direitinho pra fazer uma festinha. Uma festinha não! Vai ser uma festona!
PP:Por que a zabumba?

QUARTINHA: Eu toco pandeiro, toco agogô, mas a zabumba foi a que mais me inspirou. O zabumba foi minha vida. Eu era “jogueiro”. Era jogador de futebol. Treinei no Santa Cruz, treinei no Ámérica, fui aprovado e não gostei. Então, eu já tocava zabumba, aí eu puxei pro lado do zabumba e pra mim foi melhor de que o futebol.

PP: Como foi o início, o primeiro contato com o zabumba? Veio da família?

QUARTINHA: Eu tinha meu pai que tocava pandeiro. Praticamente eu não conheci meu pai. Aí eu perguntei a minha mãe se meu pai tocava. Ela disse: seu pai tocava pandeiro. Então é o sangue do meu pai.

PP: E no início de sua carreira? Alguém te ajudou? Deu um pontapé inicial ou você foi sempre seguindo sozinho mesmo?

QUARTINHA: Eu fui seguindo sozinho e com sete anos de idade eu fui pra um comício lá em Dois Unidos e nesse comício Luiz Gonzaga foi tocar, então eu tava no meio do público assistindo. Não tinha noção nenhuma mas já tocava zabumba e então o locutor que era um amigo meu e conhecia a minha família disse:
“Seu Luiz! Aqui tem um menininho... um menino...” Até que no fim ele me chamou de guri (risos). “Tem um gurizinho aqui que toca zabumba”.
Luiz Gonzaga disse: “Quem é?”
“É Quartinha! Ele tá aqui. Olha ele ali!
Aí ele disse: “É aquele ali? ”
Ele: ”É!”
E Luiz: “Venha cá sujeito!” Aí me chamou, eu subi no palanque e ele perguntou a mim: “Que que quer que eu toque?”
Eu disse “toque o que o senhor quiser”.
Ele tocou a “Feira de Caruaru” e eu mandei brasa (risos).

PP: Por que Quartinha?

QUARTINHA: Quando eu era pequeno, com uma idade de uns 2 anos 3 anos, eu tinha pescoço fino, que eu ainda tenho (risos), a canela a fina (risos) e o buchão. Aí um primo meu disse ... “olha Noêmia (que minha mãe se chamava Noêmia), ele parece uma Quartinha”. Aí quartinha ficou. Então eu agradeço e agradeci demais esse apelido.

PP: Deu sorte! (risos)

QUARTINHA: Deu sorte graças a Deus, deu sorte.

PP: Quais são suas maiores influências?

QUARTINHA: Rapaz ... Cícero que tocava e era o irmão do Jackson do Pandeiro.

PP: Cheguei a conhecer

QUARTINHA: chegou a conhecer Cícero?

PP: Cheguei.

QUARTINHA: Eu era fã de Cícero apesar que Deus levou ele e... também de Boréu, também que já se foi.

PP: de lá esse Boréu? (Recife)

QUARTINHA: Não.Boréu é cearense. Ele tocava com Dominguinhos, tocou muito tempo com Dominguinhos. Eu gostava muito dele. Ele era muito meu amigo, sabe? E Deus já levou. Deixa que ele tá em bom lugar ...

PP: Seu estilo de tocar é uma marca já. Todo muito que escuta, já conhece...

QUARTINHA: É...

PP: O que você faz pra ter esse som?

QUARTINHA: Rapaz, isso aí eu não sei nem explicar a você porque isso ai é Deus quem manda. Ás vezes eu tô tocando aí vem uma inspiração assim... de eu fazer um desenho, aí eu faço e quando vou querer fazer de novo, eu não sei mais.

PP: A coisa vai surgindo.

QUARTINHA: É vai surgindo assim é o momento.

PP: O que você acha dessas bandas de Forró? Chamadas de Forró “Moderno”, de “Plástico”, “Eletrônico”.

QUARTINHA: Eu num sou contra não. Há o forró...num tem forró de plástico não. Eu acho que isso é invenção. Eles fazem o trabalho deles, tem espaço pra todo mundo e... num tem forró de “plástico”. Só que aquele batida do pedal da bateria, a gente já fazia, porque tem o baião..tem duas qualidades de baião chama-se o “baião verdadeiro” e o “baião batido”, o baião batido que Luiz Gonzaga gravou “Eu vou mostrar pra vocês como se dança o baião” (tocando o ritmo em palmas) que dizer isso aqui é o baião batido então, a banda pegou e botou pro pedal, ai botou forró “estilizado” mais Gonzaga já fazia isso em mil oitocentos e antigamente.

PP: e o outro baião é o quê?

QUARTINHA: O baião “certo”. É só uma pancada (solfejou o ritmo). Chama-se um por duas ou é dois por uma.

PP: E o forró pé-de-serra com a bateria no lugar do zabumba? O que é que você acha?

QUARTINHA: Não, aí não é forró pé-de-serra não, porque se não tiver mesmo o zabumba não é forró. O forró tem que ter zabumba, triângulo e pra completar pandeiro e o agogô. Tem que ter tudo isso certo? Na minha opinião, não é forró. Quem quiser dizer que é forró, tudo bem, eu respeito, mas só que não é não.

PP: Entre os vários artistas que você já acompanhou cite alguns....

QUARTINHA: Rapaz (risos) o primeiro foi Luiz Gonzaga. Ai lá vem Dominguinhos, Sivuca, já gravei e toquei com Sivuca, Hermeto Pascoal, Genival Lacerda, Alcimar Monteiro, Jorge de Altinho, Nando Cordel, Flávio José. De Flávio José eu tenho num sei quantos discos gravados.

PP: Maciel Melo

QUARTINHA: Maciel Melo, Marinês, que Deus tenha ela em bom lugar.

PP: Oswaldinho já?

QUARTINHA: Oswaldinho (do Acordeon) que é meu amigo demais. Messias Holanda e vários artistas. Se eu for falar isso pra você, vai passar dois dias e eu não sei! (risos). Num vou lembrar tudo.

PP: Há quanto tempo você está tocando com Santanna?

QUARTINHA: Vai fazer oito anos já.

PP: Sabemos que você é um dos zabumbeiros mais solicitados para gravações. O que é preciso para fazer uma boa gravação no zabumba?

QUARTINHA: Rapaz! Primeiramente o talento. E gravação é toltamente diferente de um show ao vivo. Show ao vivo a gente pode errar. E agora tá bom que numa gravação você pode errar também, que se conserta. Mas, de primeiro quando eu comecei a gravar, vamos supor, eram quatro pessoas tudo num só canal só. Então, se errasse, tinha que voltar de novo tudinho. Hoje ta bom demais. Tá tudo moderno. Você grava num canal só e erra duzentas, quinhentas vezes e acerta, senão também o computador vai lá e ajeita, hoje tá muito fácil gravar.

PP: Você sabe quantos cd’s você já gravou?

QUARTINHA: Ah!! Não sei não (risos) Eu sou do LP ainda,do vinil, ainda sou daqueles discos de acetato, desse tamaínho, fazendo jingles, essas coisas, eu não sei quantos discos eu gravei. Não tenho nem idéia...

PP: Onde está o swing do zabumba?

QUARTINHA: (Risos) Rapaz... Já nasce. A gente já nasce com o swing. O swing num se aprende não. Se não tiver na veia (ele bate no antebraço) ... Ritmo também num se aprende... não tem escola de ritmo. Você tem que nascer com o ritmo.

PP: Quem são as novas promessas do zabumba? Quem é a nova geração que está chegando?

QUARTINHA: Aahh! Tem muitos. Tem o filho de Cicinho que chama-se Neném. Tem o Edinho, tem Zé Ronaldo que agora tá com Elba Ramalho. Tem muitos... inclusive agora, vou até puxar sardinha pra minha brasa (risos): tem um netinho meu que já tá caminhando. Já tô dando as dicas a ele.

PP: É 0 pequinininho?

QUARTINHA: É o pequenininho. Vai primeiro estudar. Ai eu digo: primeiro você tem que estudar!

PP: Qual é o nome?

QUARTINHA: É Medson.

PP: Deixe uma mensagem para os músicos e leitores do blog Paraíba Percussiva.

QUARTINHA: O que eu tenho a dizer aos meus colegas é que não deixe o forró morrer... Eu já tô assim... numa idade já legal, graças a Deus, já tô bem aceito no meio e dizer aos meus colegas que quanto mais ele toque, que ele seja mais humilde, pise no chão. Não fique querendo assim.. botar banca, vou logo no dito popular é botar banca. Tem que sempre atender todo mundo bem e pisar no chão. Ser um cara humilde porque se ele for um bom músico e não for uma pessoa humilde, um instrumentista humilde, ele não vai pra lugar nenhum.

PP: Você se considera realizado já na sua profissão ou ainda tem alguma coisa pra você conquistar?

QUARTINHA: Não... tem muita coisa ainda porque a música é infinita. Você nunca aprende tudo. Eu tenho muito que aprender ainda. Ás pessoas ás vezes diz assim: Você é o melhor zabumbeiro do mundo! Aí eu fico olhando... Ô meu amigo obrigado... só que eu num me acho assim o melhor zabumbeiro do mundo porque eu não aprendi ainda. Aí os caras: Mas rapaz, 50 anos de zabumba... não aprendeu ainda? Eu digo não! Por que a música é infinita, e quanto mais você vai tocando, vai descobrindo coisa, vai se modernizando, vai aprendendo, aprendendo... Quando aprender tudo você morre.

PP: O que foi que a música lhe proporcionou na sua vida?

QUARTINHA: As conquistas... eu não sou rico. A turma pensa que eu sou rico mas não sou. Eu tenho uma família maravilhosa, tenho minha casinha, tenho meu carrinho pra andar e quero ganhar mais dinheiro pra comprar minha fazenda (risos). Tô feliz, tô legal eu não quero enricar não. Quero que Deus me dê minha saúde primeiramente, meu trabalho e que eu ganhe meu dinheirinho que dê pra manter minha família. Só isso. não quero mais nada.

PP: Queria agradecer a sua participação e mais tarde agente está ai para lhe prestigiar.

QUARTINHA: Tá certo. Obrigado, muito obrigado mesmo.
Veja mais fotos do show aqui
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Alguns cd´s que o Paraíba Percussiva encontrou gravados por Quartinha:
Flávio José - Nordestino Lutador - 1994
Flávio José - Tareco e Mariola - 1995
Flávio José - O melhor de Flávio José - 1996
Flávio José - Filho do Dono - 1996
Flávio José - Sem ferrolho e sem tramela - 1997
Flávio José - A poeira e a estrada - 1998
Flávio José - Pra todo mundo - 1999
Flávio José - Seu olhar não mente - 2000
Flávio José - Me diz amor - 2001
Flávio José - Palavras ao vento - 2002
Flávio José - Cidadão comum - 2003
Flávio José - Acústico - 2003
Flávio José - Pra amar e ser feliz - 2004
Flávio José - Poeta cantador - 2005
Flávio José - Tá bom que tá danado - 2006
Flávio José - Dom Cristalino - 2008

Um comentário:

Antonio disse...

Quartinha sou Antonio Sales lhe conheci num chow aqui em São Paulo feito por Mano Veio e Mano Novo convesei com você ,uma pessoa simples e legal eu amo forro-pe-de-serra toco um pouco de zabumba e triâgulo escrevo tambem uns versos e umas letrinhas meu sonho é que algum músico possa musicar minhas letras quero contribuir com o que mais amo que é o forró.sou pernambucano de São José do Egito.um forte abraço para você e outro para SANTANNA meu ídolo.